O medicamento representa um bem essencial à saúde, sua importância para a sociedade atual é indiscutível e traduz-se em inúmeros benefícios, sendo responsável por parte significativa da melhoria da qualidade e expectativa de vida da população. Também contribui para menor necessidade de tratamentos invasivos, de longa duração e muito mais onerosos para o sistema de saúde.
Embora o medicamento represente importante recurso para prevenção de doenças, promoção da saúde e melhora da qualidade de vida, a OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que, no mundo, mais da metade de todos os medicamentos são prescritos, dispensados ou vendidos inapropriadamente, e que metade dos pacientes não os usa corretamente.
Quando o medicamento é tratado sem nenhum critério técnico, esta prática se traduz no "USO IRRACIONAL", que abrange também outras duas práticas distintas: a AUTOMEDICAÇÃO e o USO INDISCRIMINADO. A automedicação é a utilização de medicamentos por conta própria ou por indicação de pessoas não-habilitadas para tratamento de doenças cujos sintomas são "percebidos" pelo usuário, mas sem a avaliação de um profissional de saúde.
Não é raro encontrar alguém utilizando medicamentos para sintomas corriqueiros como mal estar, febre, dor de cabeça, dor no corpo. O uso indiscriminado é mais amplo; está relacionado à "medicalização", ou seja, uma forma de encontrar a cura para doenças e promover o bem-estar usando exclusivamente medicamentos, o que pode levar ao consumo excessivo e constante destes produtos.
Tanto a automedicação como o uso indiscriminado podem tornar-se mais perigosos ainda, principalmente quando são reforçados pela vontade de livrar-se rapidamente de algum incomodo, facilidade de se comprar alguns remédios sem receita ou sem a orientação farmacêutica, pela desinformação, propaganda excessiva e indutora, aliados à dificuldade de acesso às consultas médicas tanto no serviço público como na rede privada.
Além disso, a combinação errada de medicamentos diferentes também oferece riscos à saúde, já que um medicamento pode anular ou potencializar o efeito do outro, mascarar sintomas e fazer com que a doença evolua de forma mais grave. No caso dos antibióticos, por exemplo, o uso abusivo, ou a suspensão antecipada do tratamento pode facilitar o aumento da resistência de micro-organismos o que compromete a eficácia terapêutica.
No Brasil, o uso irracional de medicamentos tem levado a consequências preocupantes o que torna o tema de grande relevância para os que trabalham com saúde pública. Pesquisas sobre os principais causadores de intoxicações humanas, realizadas pela Sinitox (Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas) da Fundação Osvaldo Cruz, vem constatando que os medicamentos lideram o ranking das substâncias causadoras de intoxicações humanas, superando inclusive, produtos químicos e os pesticidas usados na agricultura. Só no ano de 2012, os medicamentos foram responsáveis por 27,3% dos casos de intoxicações registrados no país.
Os analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios são os mais usados pela população sem o atendimento às recomendações médicas e orientação farmacêutica. Além dos dados alarmantes sobre intoxicação de medicamentos, é interessante destacar que em 2014 o Brasil saltou do 10º colocado em consumo de medicamentos no cenário mundial para o 4º colocado segundo o instituto IMS Health, empresa que audita o mercado farmacêutico.
Para a OMS uso correto acontece quando os pacientes recebem o medicamento de acordo com suas necessidades clínicas, nas doses correspondentes às suas características individuais, durante o período de tempo estabelecido e ao menor custo possível para eles e para a comunidade. Atentos à questão, o governo federal, conselho federal e conselhos regionais de farmácia têm desenvolvido medidas voltadas à promoção do uso correto dos medicamentos, entre elas, ações que incentivam a prescrição apropriada, a dispensação em condições adequadas e por profissionais habilitados.
A Lei Federal n. 13.021/2014, por exemplo, dispõe que a farmácia é um estabelecimento de prestação de serviços de saúde e não mais um mero ponto comercial de medicamentos. Esta lei reflete a importância do papel do farmacêutico e prevê como obrigação, acompanhar os pacientes que estão em tratamento medicamentoso, provendo-os com todas as informações necessárias e inclusive informando ao médico e prescritores sobre reações adversas que possam comprometer o tratamento.
O Curso de Farmácia da Universidade São Francisco tem tratado a questão de forma particular e vem repensando na formação acadêmica que hoje avança numa perspectiva multidisciplinar e humanística. Os alunos são inseridos precocemente em cenários práticos para troca de experiências, realizando intervenções educativas junto à comunidade, associações e outras instituições na abrangência do tema: "Uso correto dos medicamentos".
Essas intervenções sustentadas pelos conhecimentos que a profissão exige se estendem para uma dimensão maior que vê o ser humano para além de sua doença e seu tratamento. A questão sobre o uso irracional de medicamentos é preocupante e merece ser levada a sério e com respeito. A população precisa ser informada.
Prof. Dra. Iara Lúcia Tescarollo
Doutora em Fármaco e Medicamentos