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Manicômios Gourmets

18/05/2015
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Manicômios Gourmets

Hoje é comemorado o “Dia da Luta Antimanicomial”.

Ao ler a palavra manicômio, nossa primeira reação é imaginar pessoas perigosas, enlouquecidas, cuja internação num hospital psiquiátrico se faz necessária para que elas voltem a ter condições de conviver em sociedade. Essa imagem não é em vão. Desde 1857, quando foi criado o primeiro hospício no Brasil, até os dias atuais, essa foi (e ainda é, em muitos lugares) a única instituição de atendimento a pessoas com transtorno mental.

Recordar é um principio fundamental para que a sociedade possa elaborar seu passado, analisar seu presente e planejar seu futuro. Historicamente, os transtornos mentais foram (e continuam sendo) incompreendidos, negligenciados e mantidos sob a tutela de instituições que produzem mais sofrimento do que saúde, com muitos casos de abandono e exclusão. Um atestado de morte social e subjetiva, que retira dos sujeitos sua singularidade.

A partir de meados do século passado, muitos países apostaram na mudança desse paradigma. Procurou-se trazer o paciente para o centro das ações, ofertando um arsenal terapêutico de acordo com a necessidade de cada um, inserindo práticas condizentes com a amplitude que o termo “saúde mental” merece. No Brasil, esse processo se consolida enquanto política pública, a partir da década de 1990.

Nos tempos atuais em que direitos humanos básicos, como liberdade e livre relacionamento afetivo, direito de ir e vir, acesso a bens comuns (como a saúde) são privilégios; em que preconceitos são defendidos; o sofrimento é cada vez menos aceito como parte da vida e visto cada vez mais como problema passível de sofrer intervenções.

O anseio pelos manicômios é social, mais do que técnico. Evidências científicas mostram que eles deveriam deixar de existir, mas eles persistem em novos formatos, reestilizados, gourmetizados. As práticas manicomiais estão presentes em nosso cotidiano: na medicalização de todos os afetos, nas clinicas para dependentes de drogas, nos tratamentos que tutelam pessoas, no estigma enfrentado pelos pacientes e, principalmente, na manutenção de muitos manicômios que sobrevivem com mais de 12.000 moradores no país.

Considerar a saúde mental no cotidiano, que em alguma dimensão afeta a nós todos, é responsabilidade de toda a comunidade. Não basta gourmetizarmos hospitais psiquiátricos (ou espaços de segregação que lhes equivalham). Temos que extingui-los, instituindo uma rede de serviços com leitos de psiquiatria em Hospital Geral, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde, Centros de Convivência, Serviços Residenciais Terapêuticos, Consultórios. A literatura mundial nos mostra que modelos comunitários e ampliados, como esse, são os mais eficazes, e que devem incluir a formação de profissionais com perfil e técnicas adequadas para promover essas mudanças.

Com a derrubada dos muros dos hospícios, não é mais possível ficar em cima deles. A posição política e ética de cada um de nós sobre essa questão é fundamental na construção de relações mais democráticas, inclusivas e que suportem o convívio com a diferença. São inegáveis os avanços ocorridos desde a implementação do SUS, contudo questões estruturais e interesses corporativos constrangem o avanço do modelo psicossocial.

Comemoremos o fechamento de muitos hospitais psiquiátricos e o resgate da vida de milhões, mas que essas conquistas não entorpeçam nossa capacidade de compreender que precisamos avançar.

Thiago Lavras Trapé
Docente do curso de Psicologia Universidade São Francisco (USF) e Medicina (São Leopoldo Mandic) Doutor em Saúde Coletiva (Unicamp).
Bruno Ferrari Emerich
Docente do curso de Psicologia Universidade São Francisco (USF). Doutorando em Saúde Coletiva (Unicamp).

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